Artigos

Fantasia não eliminada

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2008.

Carta à Revista História da Biblioteca Nacional


por Marcelo Câmara*

Na matéria A pinga que não pingava, de Luciano Figueiredo e Marcello Scarrone, in Cadê a história que estava aqui (Edição nº 29, fev. 2008), a fantasia, a ficção foi apontada mas, não de todo, desmascarada, demolida, eliminada. A baboseira intitulada A origem da cachaça, atribuída ao Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco (Gilberto Freyre e Mario Souto Maior estão revirando-se nas sepulturas...), circula em arquivo anexado a mensagens na Internet há alguns anos. Ainda não consegui descobrir qual inventivo e desocupado indivíduo construiu tanta asneira. Localizei, sim, o webdesigner que colocou imagem e som na falsa narrativa. Este, por sua vez, desconcertado, comigo desculpou-se, prometeu denunciar o erro ao redator do indigitado texto, mas não me informou o nome do criador da medonha estória. Tudo é ficção tola e inservível, fantasia para encantar, para enganar curiosos, gente interessada, até bem intencionada. A versão não tem fato, documento ou testemunha de onde pode originar-se. E não passa disto. Exaure-se em si mesmo, isto é, na sua própria inconsistência, em nada. Nenhum fundamento histórico ou científico. Nenhuma palavra, linha ou idéia se aproveita no tal arquivo que circula nos computadores. Por outro lado, a matéria da Revista é falha, não é conclusiva e desinforma, porque:

1º) Portugueses, e outros povos, fabricavam, sim, aguardentes, mas jamais “cachaça”, o destilado do mosto fermentado do caldo, do melado, da rapadura ou do melaço da cana-de-açúcar (hoje, por lei, “cachaça” é apenas o destilado do mosto fermentado do caldo da cana-de-açúcar). O texto indecente que circula na Internet intitula-se A origem da cachaça (sic) e não da aguardente. Bebida da espécie “destilado” e pertencente à categoria das “aguardentes”, a Cachaça foi inventada no Brasil entre 1533 e 1534 pelo colonizador Martim Afonso de Souza e seus quatro sócios (três lusos e um holandês), em plena Mata Atlântica, nos três primeiros engenhos de açúcar construídos pelos cinco no Brasil (as primeiras indústrias do País), em São Vicente (hoje o local pertence a Santos): Madre de Deus, Santo Antônio e São Jorge, este conhecido, também como "dos Erasmos" ou "do Governador", único do qual restam ruínas. Martim Afonso trouxe o primeiro alambique para a terra recém-descoberta, engenhoca utilizada na Península Ibérica desde o início da Idade Média, e destilou a cana, cujas primeiras mudas chegaram à nova terra pelas mãos de Gonçalo Coelho em 1502.

2º) Antonil, no clássico Cultura e Opulência do Brasil, descreve, passo a passo, o fabrico seiscentista e primitivo do açúcar, mas em nenhum momento trata de “cachaça” na acepção que temos, para designar a bebida nacional, que conhecemos e amamos. Ele emprega o termo para designar outra bebida, ou melhor um subproduto, um resíduo descartável do processo de fabricação do açúcar. Quando ele escreve “cachaça” está se referindo à escuma (espuma) eliminável, descartável, da primeira fervura do caldo no início do processo. E por que ele usa “cachaça”? Porque “cachaça”, apesar de ser uma palavra da língua portuguesa, termo generalizado na fala do povo do Brasil na segunda metade do Setecentos, não obstante um termo que denomina a bebida nacional, mesmo sendo uma criação linguístico-cultural genuína e absolutamente brasileira, brasílica – origina-se do espanhol “cachaza” que, na Península Ibérica, designava uma “bagaceira popular ou de baixa qualidade”. Sites e arquivos habitam a Internet oferecendo outras versões fantasiosas sobre a origem da palavra “cachaça”, todas ineptas. Os colonizadores e os primeiros brasileiros importaram a palavra e sua semântica para designar algo inferior, desprezível, no caso a escuma da primeira fervura que era dada às animálias. Observe-se que a palavra “cachaça” antes de denominar a nossa emblemática bebida, um símbolo nacional, serviu para chamar o lixo, o resto, a sobra. Compreenda-se a origem espúria que lhe foi dada através da diacronia da palavra. “Cachaza” nasceu e era usada no Velho Mundo, e depois foi aplicada aqui, para designar um produto inferior, pobre, subalternizado na cadeia industrial e na escala de valoração cultural. Eis uma das raízes, uma das causas histórico-culturais de discriminação, pré-conceituação, criminalização e patologização da cachaça na nossa sociedade. Antonil emprega fartamente mel, mel de cana, meles, garapa, melado, açúcar, água ardente (a nossa cachaça, palavra composta, escrita sem aglutinação) e nomes de outros produtos e subprodutos da indústria açucareira, para descrever processos e regimes, explicar fabricos, registrar produção e comércio. Porém “cachaça” ele escreve apenas e tão somente para denominar essa escuma residual, não alcoólica, destinada aos currais, jamais no sentido e na aplicação que foi generalizada a partir do Século XVIII e que temos hoje. Para não dizer que Antonil foi absolutamente coerente em toda a sua obra nesse mister, uma única vez ele escreve “cachaça” para não se referir a tal escuma, mas, sim, à “cachaça azeda” ou garapa azeda ou garapa doida ou cerveja de cana, que é o que conhecemos como mosto, mucungo ou quira, isto é, o caldo fermentado da cana-de-açúcar, que tem em torno de 12% de álcool ao volume a 20o Celsius. Entretanto, ainda não temos a “água ardente” com o nome de “cachaça”, referenciada por Antonil, resultado do ato de “estilar” (destilar) de que nos fala o jesuíta italiano.

3º) Demolindo o estapafúrdio texto que circula na Internet: “Pinga”, palavra já empregada muitas vezes por Antonil, antes dele já designava “porção ou parcela mínima de líquido que escorria, que gotejava, gota, gole, trago”, não só do caldo da cana ou de seus derivados, mas de qualquer líquido, alcoólico ou não. “Pinga” como sinônimo de cachaça aparece na fala do povo e nos documentos dos escrivães e cronistas desde a invenção da cachaça. Diz-se “pinga” porque pingava, e pinga, escorre, goteja, na ponta do alambique, e não do telhado, das ripas de senzala alguma, pois em senzala nunca se fabricou melado, açúcar, muito menos cachaça. O composto “Aguardente” ou “água ardente” é palavra medieval, pretérita ao surgimento da cachaça, porque já existiam outras aguardentes, como a bagaceira, o korn, o schnapps, a vodca, o gim, a genebra, a aquavita, o quirche, a cidra, o poteen, o arac, o uísque e as aguardentes vínicas como o conhaque, o armanhaque, o brandy, o ouzo, a mastika, o pisco e outras, antes da bebida brasileira. Portanto a origem da palavra “aguardente” nada tem a ver com açoite de escravos com lombo molhado de cachaça. Pura fantasia inverossímil, implausível.

4º) “Cachaça” e “garapa” são termos falados e escritos no Brasil, em várias acepções, desde o Século XVI, a partir das atividades dos primeiros engenhos e da invenção da bebida. A palavra “cachaça”, a nossa aguardente de cana-de-açúcar, não começa a circular apenas “até a terceira década do século XVII, quando surgem as primeiras notícias da aguardente da cana-de-açúcar destilada em alambiques”, como afirma, equivocadamente, o artigo. Encontramos a palavra “cachaça” escrita designando a nossa aguardente de cana-de-açúcar, no início do século XVII nos Anais da Câmara de Salvador, Bahia. Antes disto, Gabriel Soares de Sousa, no seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, registra uma “casa de cozer meles com muita fábrica” também na Bahia, onde se produzia açúcar, melado, rapadura e cachaça. Outrossim, aguardente de cana-de-açúcar só poderia ser destilada em alambiques e não por qualquer outro processo. Ademais, “agoa ardente”, “água ardente”, “aguardente” sempre foi dito e escrito desde o Descobrimento. “Aguardente da terra” em oposição à “aguardente do reino” ou “aguardente de fora” antecedeu à “geribita da terra” ou ”giribita da terra” (ou jeribita ou jiribita... existem diversas outras formas) com a mesma antítese, ainda no Século XVII, é verdade. Antes de aguardente, geribita e cachaça, mais precisamente nos séculos XVI e XVII, muito mais se falou e se escreveu mel de cana, vinho de cana, vinho de mel, vinho de mel de cana.

5ª) Outra conclusão vesga do artigo da revista: Tomás Antônio Gonzaga não criou expressão “cachaça ardente”. Quando nos versos da 5ª Carta , da obra Cartas Chilenas (1788-9) – “Pois a cachaça ardente que o alegra, / Lhe tira as forças dos robustos membros” – o bardo mineiro não criou neologismo ou sinonímia alguma para a cachaça. Apenas expressou-se poeticamente, sem metáfora, adjetivando sem originalidade a bebida, repetindo um julgamento comum e indestrutível: Cachaça é uma água ardente saborosa, que arde, que queima prazerosamente, pelo volume de álcool que contém e pela sua acidez natural e necessária, e que, entretanto, desce macia, sem queimar, deliciosamente pela garganta e esôfago até o estômago. Gonzaga antecipa-se ao comerciante inglês John Luccock que publica em Londres, em 1818, o que viveu no Brasil dez anos antes: “Provei e adorei as águas de fogo de Paraty”. A cachaça não apenas esquenta o corpo e o espírito, provoca “sensação de calor” como informa o artigo. Antes de aquecer o corpo e o coração, antes de alimentar a alma, cachaça, na boca, quando inunda a boca, arde realmente. E assim deve ser. E essa doce e orgástica ardência é uma das suas mais sublimes e misteriosas virtudes.

6ª) A cachaça Anísio Santiago (ex- Havana), de Salinas, MG, não é uma das mais antigas e tradicionais do Brasil. Quem escreveu isto sabe de cachaça tanto quanto o sertanejo de Bebe-Mijo, no Piauí, sabe de esqui no gelo. Leitura de mídia superficial, errônea e leviana. Para uma bebida que está fazendo 475 anos de vida, uma cachaça de quatro, cinco décadas não significa coisa alguma. Além de não ser cachaça mas apenas uma cachaça mal envelhecida, filha de uma desconhecida cachaça ruim - a Anísio Santiago não possui excelência sensorial alguma. Trata-se de bebida apenas ingerível por quem conhece cachaça, mas nunca saborosa, com qualidade sensorial superior. Minas consome cachaça desde a descoberta do ouro, porém fabrica há menos dois séculos. Salinas, por outro lado, não tem cachaça nem tradição. Produz, há algumas décadas, e em quantidade, cachaça envelhecida de má qualidade, tingidas em madeiras agressivas, oriundas de pingas ruins que não chegam ao mercado, que são escondidas pelos seus fabricantes. Se a Revista quisesse ilustrar o texto com algum rótulo deveria fazê-lo com o de alguma cachaça de Paraty, RJ, o mais antigo centro produtor de cachaça do mundo, que exibe mais de quatrocentos anos de tradição, ciência, arte, excelência na fabricação de cachaça. A Coqueiro e a Corisco, ambas de Paraty, por exemplo, as melhores cachaças que existem, são feitas por famílias que produzem cachaça, no mínimo, há mais de duzentos anos, ininterruptamente, de pai para filho. Sabedoria e mestria entre gerações.

A Revista já havia publicado, em 2006, artigo sobre a cachaça prenhe de equívocos e imprecisões de toda ordem. A brasileira Cachaça é desejo de bilhões de terráqueos, bebida de milhões de consumidores, curiosidade de milhares de habitantes, interesse de centenas de intelectuais. Mas assunto para muito poucos.

Cordialmente,


Marcelo Câmara

(*) MARCELO Nóbrega da CÂMARA Torres, 58, jornalista, escritor, editor e consultor cultural. Cachaçólogo, é autor de Cachaças bebendo e aprendendo – Guia prático de degustação / drinking and learning – Practical guide to tasting (Mauad, 2006), primeiro e único livro de degustação de cachaças, e de Cachaça – Prazer Brasileiro (Mauad, 2004), primeira obra dirigida ao mercado, ao consumidor real e potencial da bebida nacional. Pingófilo por mais de cinqüenta anos, foi o primeiro degustador de cachaças a se profissionalizar, exercendo o ofício de 1994 a 2007.
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Marcelo Câmara (Marcelo Nóbrega da Câmara Torres)
Jornalista, escritor, editor e consultor cultural.
Consultoria em Cultura, Direitos Culturais, História, Folclore, Artes,
Música, Bossa Nova, Ipanema, Paraty, Baía da Ilha Grande,
Comunicação Social e Cachaça.
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